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Carta de adeus.

E lá estava eu novamente. Deitado naquele colchão velho e imundo, sem perspectiva, sem visão... Sem qualquer motivo para prosseguir com aquela mísera vida.

Meus pensamentos eram como palavras soltas num alçapão: inúteis, somente ocupando espaço. Mas, pouco me importava.Afinal, para que espaço na mente?  Não conseguia mais raciocinar, meu coração prosseguia no automático, como os ponteiros de um relógio, aguardando o fim da bateria. 
Nada mais fazia sentido. Era como se as mais belas flores, agora, fossem tão frias e sem vida como uma pedra e, esta, tão encantadora quanto uma rosa. Não havia mais qualquer nexo em minha existência. 
Eu ia me embalando no vento gélido que entrava pela pequena rachadura da parede, fruto da velhice e maus tratos daquela casa já abandonada por mim há anos. Nossa... Quantas lágrimas minhas estes pisos já não absorveram? Quantos gritos estas paredes já guardaram? Quantas vezes já não olhei para este mesmo teto, mofado pelo tempo, que abrigou todo meu desespero? E, hoje, vinha este vento, como um último sopro de vida, trazer-me meu devido adeus.
Abri meus braços, fechei meus olhos e sorri como nunca havia feito antes. Pela primeira vez, senti-me pleno, realizado...
A morte nunca fora tão bela.

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